A ESCUTA PSICANALÍTICA NOS CUIDADOS PALIATIVOS
Resumo
Este artigo de opinião surge do interesse despertado pela disciplina de Psicologia Hospitalar e da leitura da obra de Ana Beatriz Raimundo de Castro, propondo reflexões sobre as contribuições da escuta psicanalítica nos cuidados paliativos. Quando a cura médica já não é possível, o que é possível diante desta experiência de finitude do paciente? O hospital, tradicionalmente programado como instrumento de intervenção curativa, encontra-se diante de um impasse. É neste contexto que a escuta psicanalítica se torna fundamental, não buscando cura de algo, mas oferecendo cuidado integral e escuta ao sujeito em sua singularidade. A teoria freudiana contribui significativamente para compreender a experiência de finitude. A tensão entre pulsão de vida e morte estrutura o psiquismo, sendo que a angústia de morte transcende o temor do fim, incluindo a ameaça de dissolução do eu e confronto com o desconhecido. Sua reflexão sobre transitoriedade ensina que a finitude não empobrece o belo, mas pode aumentar seu valor. Pacientes oncológicos fora de possibilidade terapêutica apresentam diversos mecanismos defensivos: negação diagnóstica, projeção, intelectualização, regressão e sublimação da angústia. A escuta psicanalítica possibilita ressignificar a história pessoal, o tempo restante e o valor do presente, elaborando o luto pelo que não virá e permitindo expressão de medos, agressividade e revolta, auxiliando o paciente, familiares e equipe de saúde. A prática exige adaptações técnicas importantes: manejo cuidadoso da transferência e contratransferência, adaptação do setting às condições físicas do paciente e integração interdisciplinar sem descaracterizar a especificidade analítica. Conclui-se que a psicanálise oferece contribuição valiosa para humanização do cuidado, reconhecendo a singularidade de cada sujeito diante da morte e oferecendo encontro genuíno com a realidade da finitude humana.